DEPOIS A LOUCA SOU EU | UM RELATO HONESTO E BEM-HUMORADO DO QUE É VIVER COM ANSIEDADE

Um filme que fale sobre crises de ansiedade parece propício para esse momento em que passamos por uma pandemia e a estabilidade emocional de poucas pessoas passaram ilesas, mas, apesar de “Depois a Louca Sou Eu” não abordar a pandemia (inclusive já havia sido gravado bem antes dela) não deixa de ter uma temática extremamente atual.

Numa sociedade em que a população sofre mais transtornos de ansiedade que nunca, o longa nos leva para conhecer a jornada de Dani, uma jovem adulta que desde que criança sofre de ansiedade e crises de pânico e que nunca conseguiu lidar com isso de verdade.

“Depois a Louca Sou Eu” é uma adaptação do livro autobiográfico homônimo da escritora e roteirista Tati Bernardi e no filme, assim como no livro, o gênero escolhido para nos contar a trajetória de Dani é a comédia. Com uma narração em off feita por Dani, somos apresentados às causas e sintomas de seus “surtos”.

Dani começa trabalhando com publicidade e depois se torna roteirista, mas sua vida profissional é abordada de forma superficial durante a história, exceto quando afetada diretamente pelos seus transtornos. O foco da trama é te fazer compreender Dani e compreender as crises emocionais que ainda são objetos de estigma social.

Acostumada com seus surtos, mas não conformada, Dani passa a vida a adulta tentando de tudo para se sentir “normal”, desde terapia e constelação familiar à uma espécie de dança espiritual, mas as coisas só começam a mudar (mas não necessariamente melhorar) quando conhece Gilberto (Gustavo Vaz), um homem que passa pelas mesmas crises que ela. Eles são unidos por essas questões e pela primeira vez Dani se sente compreendida, mas nem tudo são flores.

Depois de problemas com relacionamento e constante instabilidade emocional, Dani é apresentada aos ansiolíticos e aí sua vida muda de verdade, mas ainda sem melhorar. Os efeitos dos remédios são mostrados de forma muito crível ao mesmo tempo que dinâmica e engraçada, tantos os prós quanto os contras.

Sua relação romântica é bem mais presente do que suas relações profissionais ou sociais que chegam a ser inexistentes, mas o grande trunfo de “Depois a Louca Sou Eu” está na relação de Dani com sua mãe Silvia (Yara de Novaes). Mesclando flashbacks com cenas atuais, identificamos na mãe de Dani muitas mães que conhecemos na vida real, Silvia é superprotetora e apesar de ter sempre os melhores interesses de Dani em mente, muitas vezes acaba atrapalhando ao invés de ajudar.

Desde sua infância, em que Dani já tinha crises e sua mãe a levou a um ritual ao invés de um psicólogo, até sua vida adulta em que a mãe a protege do mundo fazendo com que Dani prefira continuar fugindo dele, Silvia claramente tem seus próprios dilemas psicológicos, que acabam afetando sua filha também. As demonstrações de amor de Silvia para com sua filha estão sempre numa linha tênue entre incentivo e completa desmotivação.

Dirigido por Julia Rezende, o filme começa mais comerciais, com referências claras à Amélie Poulain e cenas beirando o clichê, mas logo somos apresentados à uma direção muito mais autoral e que Julia já demonstrou fazer muito bem em seus trabalhos anteriores, se utilizando da comédia de forma inteligente e na dosagem certa enquanto trata de um assunto sério e sem tantos motivos para risada. As cenas que descrevem as sensações de Dani durante suas crises são especialmente interessantes e as metáforas visuais criadas ajudam qualquer pessoa, tendo vivido episódios de ansiedade ou não, a entender um pouco como é passar por essas crises.

Com um elenco de muita qualidade, com destaque à Débora Falabella oferecendo uma atuação completamente entregue no papel de Dani e a direção certeira de Julia Rezende para o gênero, o relato é honesto, verdadeiro e fácil de se relacionar, todas as cenas nos levam a sentir empatia pela protagonista. O filme, porém, é muito mais um diário da vida moderna do que um manual como pretendem sugerir, isso porque apesar de sua jornada de autoconhecimento, não há, de fato, algo encontrado por Dani que solucionasse ou ajudasse a manter suas manias sob controle, ela apenas aprendeu a conviver com seus altos e baixos.

“Depois a Louca Sou Eu” chega aos cinemas brasileiros em 25 de fevereiro.