ESQUADRÃO DAS GALÁXIAS | POR QUE A WARNER É TÃO COPIONA?

Há décadas, a Warner detém os direitos de produção audiovisual sobre todos quadrinhos da DC Comics, mas por muitos anos concentrou suas produções live-actions basicamente em um único personagem: o Batman. Entre 1989 e 2012, foram 7 filmes sobre o morcegão, mesmo com um rico e vasto material nas mãos sobre dezenas de outros personagens.

Para que o grande estúdio da torre d’água ampliasse suas possibilidades foi necessário que um estúdio nascesse praticamente do nada, inovasse com o conceito de “universo cinematográfico compartilhado”, lucrasse muito e fosse comprado por um estúdio concorrente (vale lembrar que o Marvel Studios começou de forma independente antes de ser comprado pela Disney). É um fato que somente após o grande sucesso de “Os Vingadores” em 2012, a Warner passou a levar a sério a ideia de uma equipe de heróis na telona (já que outras tentativas não chegaram a ser mais do que meras ideias). 

A missão ficou a cargo de Zack Snyder, que já estava trabalhando em sua versão mais sombria do Superman no longa “O Homem de Aço”. O visionário cineasta planejou uma sequência complexa de eventos que transportariam para as telonas (em poucos filmes) o tão sonhado universo cinematográfico da DC Comics, que na época contava ainda com a ajuda de Patty Jenkins, responsável pelo longa solo da Mulher-Maravilha, e David Ayer, que ficou responsável por estabelecer uma gama de vilões em “Esquadrão Suícida” que poderiam ser usados em diversos filmes no futuro. Com uma estrutura diferente e uma outra “pegada”, este novo universo tinha tudo para seguir o seu próprio caminho, por mais que tivesse suas origens no sucesso da Marvel.

Veio então o primeiro baque: “Batman V Superman” (2016), o primeiro filme que enfim introduzia diversos heróis da DC na mesma cena, foi mal recebido pelo público e pela crítica, por ser demasiado sombrio e complexo. O fato é que se tratava de um filme denso, com uma pressa em construir um “universo” que competia com a própria trama do longa. Tanto que em sua versão “Ultimate”, com 3 horas de duração, praticamente todos os problemas são resolvidos, mas, infelizmente, o cinema de hoje já não aceita tão bem filmes tão longos, é necessário que tenha uma rotatividade nas salas (os donos dos complexos de cinema mal imaginavam o que estava por vir em 2020).

Você sabia?

“Mecenas” é um termo que faz referência à Caio Mecenas, conselheiro do Imperador Augusto, durante o Império Romano, conhecido por ser um protetor dos artistas. No Renascimento, os mecenas eram aqueles que financiavam os artistas para que estes pudessem criar livremente, sem interferência de terceiros.

A resposta da Warner ao fracasso de “Batman V Superman” é absolutamente compreensível do ponto de vista financeiro, afinal estamos falando de milhões, mas do ponto de vista artístico foi completamente precipitada e absolutamente contra os princípios de um mecenas. Ok, caro leitor, confesso que posso ter ido longe demais ao comparar um estúdio milionário a um mecenas, mas talvez o que aqueles diretores e roteiristas precisavam naquele momento era de um mecenas, pois somente assim poderiam dar continuidade a sua obra, sem palpites baseados em análises preliminares. Faltando poucos meses para o lançamento de “Esquadrão Suicida”, de David Ayer, o estúdio decide, então, alterar o “tom” do filme, acrescentando cenas mais cômicas e alterando todo o corte do longa. 

Em diversas entrevistas, o diretor e roteirista David Ayer alegou que teve que assistir o seu trabalho ser destruído pelas diretrizes do estúdio, que apostaram inclusive no sucesso da comédia para maiores “Deadpool”, lançada no começo do mesmo ano. E o resultado? Mais um fracasso, mas não por ser um filme super denso como o predecessor “Batman V Superman”, mas sim por parecer um Frankenstein em forma de filme, com diversas cenas que desequilibravam o tom do longa, e ainda por cima prejudicaram o desenvolvimento de muitos personagens.

Essa correção impositiva do “tom” de suas produções se alongou ainda mais para o vindouro “Liga da Justiça” (2017) de Zack Snyder, que teve a contratação do diretor dos dois primeiros longas dos Vingadores, Joss Whedon, para refilmagens e a realização de um corte “menos sombrio” do filme. E mal sabia a Warner que emplacaria mais um grande fracasso nos cinemas. Com o recente lançamento do corte com a visão original do diretor Snyder, graças a uma campanha incansável dos fãs, ficou claro o quão prejudicial foram as interferências do estúdio na produção de 2017, e como Zack tinha criado uma trama visionária e intimamente interligada, desde “O Homem de Aço”.

Mas ainda em 2018, logo após o fracasso da primeira versão da Liga da Justiça nas telonas, os executivos da Warner atribuíram o fracasso ao “universo compartilhado” e tiveram a coragem hipócrita de dizer que dali em diante os cineastas teriam mais liberdade para criar filmes independentes. Os vindouros “Shazam!” e “Coringa”, ambos de 2019, deram um bom retorno ao estúdio, ajudando ainda mais a enterrar o universo compartilhado desses personagens. E entre tantos rumores e o “fim” do universo compartilhado, “Esquadrão Suicida” tinha um futuro incerto devido aos seus fortes laços com com a ideia de compartilhamento de personagens.

Jared Leto, mais de uma vez, disse que a sua versão do Coringa foi retalhada no filme e que eles tinham muito material gravado sobre o desenvolvimento do personagem.

Paralelamente, depois de uma controversa demissão da Disney por conta de tweets antiquíssimos com piadas que foram mal vistas, não demorou muito (na verdade apenas três meses) para que James Gunn, o “pai” dos Guardiões da Galáxia na Marvel conseguisse um emprego como diretor no estúdio concorrente. E em outubro de 2018 foi anunciado que Gunn seria o escritor e diretor do segundo filme do Esquadrão Suicida, em uma clara tentativa da Warner de emular o sucesso dos Guardiões da Galáxias com o seu grupo de vilões desajustados. E assim, pela segunda vez, vemos o estúdio do Pernalonga contratar o responsável por um sucesso da Marvel para um filme baseado nos personagens da DC Comics. Dessa vez, pelo menos, o cineasta teria total controle desde o início (ou será que não?), ao contrário do ocorrido com Whedon em Liga da Justiça.

Acrescentando um artigo a frente do nome do filme “O Esquadrão Suicida”, de James Gunn, tem a proposta de funcionar como um filme independente sem nenhum laço com o seu predecessor, porém aproveitando alguns dos mesmos personagens e atores. Bastante confuso né?

Com o lançamento do trailer do filme, finalmente pudemos ter uma ideia do que nos espera em agosto deste ano. E por mais que a prévia seja muito divertida, diversos elementos nos fazem ter a sensação de que já vimos esse filme (e na verdade já vimos sim, ele se chama “Guardiões da Galáxia”). Seria fácil dizer que o reconhecimento de alguns elementos se devem exclusivamente ao fato de termos James Gunn no comando, mas é importante ressaltar que o cineasta, mesmo mantendo uma linha coerente em seus trabalhos, não havia se repetido até então, na verdade em sua trajetória encontramos filmes muito diferentes entre si. Será que as semelhanças entre o trailer de “O Esquadrão Suicida” e os filmes dos Guardiões da Galáxia são, no fim das contas, propositais? 

Se você não conseguiu identificar todas, abaixo listamos os principais pontos:

Música dos anos 70 em cenas insanas de ação

Ao fundo do primeiro trailer de “O Esquadrão Suicida”, escutamos a canção “Dirty Work”, sucesso de Steely Dan de 1972. Sucesso dos anos 70? Bem, este é um dos pontos altos da trama de Guardiões da Galáxia, que é regada de hits dos anos 60 e 70, criando uma atmosfera muito inovadora quando tais músicas se mesclam com cenas inusitadas de ação. Será que neste filme também teremos um significado para tais escolhas musicais? Ou foi algo escolhido somente para o trailer?

Personagem forte, bruto, grande, pouco inteligente e carismático

O Groot (adulto) e o King Shark são personagens completamente diferentes em suas origens nos quadrinhos, por mais que a violência seja algo em comum. O que chama atenção, porém, é a escolha de Gunn em utilizar os personagens exatamente da mesma forma: um brutamontes violento e pouco inteligente, mas muito carismático. Se quisermos forçar um pouco a barra, ainda podemos dizer que o design do personagem, muito diferente de adaptações anteriores, acabou ficando muito próximo do alienígena Drax: um parrudinho cinza sem camisa.

Personagem peludo bizarro

Não tivemos nenhuma informação sobre o personagem Weasel, de Sean Gunn, e tudo o que sabemos é que se trata de um personagem peludo em CGI que integra uma equipe bizarra. Te lembra alguma coisa? Vale lembrar que em Guardiões da Galáxia o personagem Rocket também é interpretado pelo irmão de James Gunn no set de filmagens (com a adição da voz de Bradley Cooper depois).

Piadas com pênis

No trailer de “O Esquadrão Suicida” temos uma pequena sequência com John Cena e Idris Elba com uma piada sobre “comer pintos”. Isoladamente, seria apenas mais uma piada, mas com todo esse conjunto não podemos deixar de lembrar da cena em Guardiões da Galáxia Vol. 2 com uma sequência de piadas sobre o pênis do Ego.

Personagem com dificuldade com figuras de linguagem e metáforas

Drax e Mantis, nos filmes dos Guardiões da Galáxia, têm muita dificuldade em entender figuras de linguagem e metáforas por terem um entendimento muito literal de tudo que lhes é falado. Este fato torna muitas cenas engraçadas no longa, e muito provavelmente seremos apresentados a esta mesma estrutura cômica em “O Esquadrão Suicida”, já que logo no primeiro trailer temos o uso exato deste recurso na mesma piada sobre pênis que vimos acima, quando uma personagem questiona o porquê o personagem de John Cena teria que comer pênis, sem entender o sentido por trás do que lhe foi falado.

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Michael Rooker

Não podemos atribuir o uso de um mesmo ator a uma cópia de outro filme, concordo caro leitor. Porém aqui não se trata somente do uso de um mesmo ator, mas também o uso das mesmas características do personagem: um bandido mau encarado. Será que é só implicância? 

 

Por curiosidade vale dizer que além de Rooker e Sean Gunn, também temos a presença de Stallone que também teve um papel em Guardiões da Galáxia.

Monstro gigante pegajoso

Uma das melhores sequências de ação da franquia dos Guardiões da Galáxia é a cena de abertura do segundo filme quando eles precisam enfrentar uma criatura pegajosa com tentáculos. Bem parece que teremos mais sequências com essa premissa no filme dos super vilões.

Novamente, por mais que o Abilisk dos Guardiões e o vilão Starro tenham histórias completamente diferentes, o que conta aqui são as escolhas similares do diretor que, querendo ou não, vão render sequências similares a franquia da Marvel.

"Vamos morrer"

Certo, não é possível “patentear” frases, mas dado o contexto que estamos acaba ficando muito fácil reconhecer até mesmo algumas falas dos personagens. A frase “Todos vamos morrer” é utilizada em pontos chaves de ambos os filmes dos guardiões, e agora já damos de cara com ela no trailer do próximo filme de James Gunn. Muita coincidência com paranoia? Ou realmente temos muitos pontos em comum? 

Obviamente, nada disso significa que o filme será de todo ruim, ou uma cópia descarada. Toda a questão, na verdade, gira em torno de uma constante busca do estúdio por uma falta de identidade. A campanha pelo lançamento e todo o sucesso da Liga da Justiça de Zack Snyder mostrou que é possível seguir um caminho diferente e que o público está preparado para isso. Será que Gunn teve toda a liberdade para criar neste filme? Ou teve pedidos específicos por parte dos executivos da Warner?

Agora nos resta aguardar agosto para que apreciar o novo filme de James Gunn, que por aqui deve chegar exclusivamente nos cinemas.