Explorando a realidade sem frescura e vitimismo, os irmãos Russo acertam em “Cherry”

Nico Walker foi um paramédico condecorado do exército dos Estados Unidos que serviu durante a guerra do Iraque. Quando voltou para seu país, sofrendo de transtornos pós-traumáticos, começou a se envolver com drogas, como uma evolução dos pesados remédios que tomava para controlar sua ansiedade. Para sustentar seu vício, passa a assaltar bancos até ser pego e condenado a 11 anos de prisão. Após ter sua história publicada pelo BuzzFeed, editores o procuraram na prisão para que ele escrevesse um livro. 

 

Esta é a história real de Nico que originou um livro de ficção escrito na prisão, onde todos os grandes acontecimentos de sua vida estão presentes, mas romantizados e sob a perspectiva de “Cherry”, personagem-título. Assim que o livro foi publicado, a produtora dos irmãos cineastas Anthony e Joe Russo (conhecidos pelo trabalho com a Marvel Studios nos dois últimos filmes do Capitão América e dois últimos filmes dos Vingadores) comprou os direitos para uma adaptação cinematográfica que teria Tom Holland (“O Impossível” e franquia do Homem-Aranha) como protagonista. O resultado é um filme surpreendente sobre responsabilidade, com uma história que dispensa “mimimi” e mesmo fazendo duras críticas sociais não aposta na caracterização do protagonista como uma vítima da sociedade.

 

 

A adaptação da trama ficou por conta de Angela Russo-Otstot (irmã de Anthony e Joe, em sua estreia como roteirista de um longa) e Jessica Goldberg (produtora e roteirista do seriado Away, da Netflix). As roteiristas optaram por segmentar o filme como um livro, incluindo até um prólogo e um epílogo, uma decisão muito positiva para ditar um ritmo ao filme e apresentar de forma muito inteligente um drama multifacetado que explora diversos aspectos da vida do protagonista, dando o devido peso para cada um deles.

A história começa quando Cherry conhece Emily (Ciara Bravo, de Vizinhos 2), e nesta primeira parte a paixão entre os jovens é retratada com intensidade, onde se destacam o egoísmo, a onipotência, a confusão e a impulsividade dos jovens. Essa tangibilidade é uma constante no filme, e a abordagem dos irmãos Russo faz com que cada comportamento seja reconhecido pelos espectadores em pessoas próximas ou neles mesmos. No segmento seguinte temos as consequências da primeira parte em um retrato cru da Guerra do Iraque, com fortes críticas por trás de cenas fortes que não têm tempo de serem romantizadas e floreadas, tal como em uma guerra de verdade.

 

 

A máxima do filme são as consequências, e nos seguimentos posteriores quando vemos o personagem voltar para casa e entrar no mundo do crime, somos inundados por elas, em uma visão que não coloca Cherry como vítima, mas sim um adulto responsável pelos seus atos, e pronto para assumir as implicações de suas escolhas. É extremamente interessante observar como os Russo respeitaram a visão conservadora do autor, que seguramente viveu e viu horrores indescritíveis que não o permitiu colocar o protagonista como um coitado.

Não é uma surpresa que Tom Holland seja um grande ator, e não por seu importante papel como Homem-Aranha nos filmes da Marvel, mas por seus excelentes trabalhos em “O Impossível” (Assista no Prime Video), quando ainda era uma criança, e também no filme “No Coração do Mar”. Todavia, em “Cherry” o seu trabalho surpreende, e não existem dúvidas que esta atuação perdurará por muitos anos como o seu melhor desempenho. Seja nos momentos românticos, nos abusos cometidos dentro do exército, no ápice da guerra, na transição para se tornar um viciado e na vida de criminoso, Holland é impecável com uma performance complexa que torna verossímil todos os sentimentos do protagonista. Infelizmente. Ciara Bravo não está no mesmo nível do jovem ator, e nem sempre consegue responder a boa direção dos Russo. E talvez a sua escalação tenha sido um equívoco devido à grande janela temporal do filme e as suas feições de jovem adolescente que não são adaptadas com a maquiagem a contento.

 

 

“Cherry” foi recebido de forma muito mediana pela maioria dos críticos, que alegam falta de consistência entre os atos do longa-metragem, deixando escancarado uma corrente de pensamento estabelecida hoje em dia que refuta a responsabilidade pelas consequências das ações, premissa que é a base da trama. Os Russos merecem elogios a parte pela coragem em produzir e lançar um filme com uma história crua que dá o peso certo para as coisas, e não se rende a discursos deturpados, que infelizmente são muito populares nos dias de hoje. “Cherry”, além de ser o nome do protagonista, é um trocadilho com a expressão em inglês que faz alusão à perda da virgindade no sentido figurativo, uma transição para a realidade. E não é isso que nos falta? Sair de nossas fantasias, acordar para a realidade e dar valor para o que é importante de fato?