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Charles Chaplin grava “Luzes da Cidade” (City Lights) em 1931, quando o Cinema já tinha uma certa maturidade tanto intelectual quanto estética. Filmes como “O Martírio de Joana D’arc” (Carl T. Dreyer, Dinamarca, 1928) e M. O Vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang, Alemanha, 1931) já haviam sido feitos, abrindo uma nova possibilidade ao Cinema da época. Não mais os filmes tinham um caráter meramente de entretenimento como o era nos idos de 1900 com os filmes de Méliès, agora começavam a desenvolver uma profundidade que daí para frente só tenderia a se intensificar.
Embora no caso desse “Luzes da Cidade” esta profundidade não fosse total, devido à abordagem utilizada de Chaplin, preferindo a comédia, é notável como o Cinema da época o inspirou, trazendo cenas de um rigor incrível, tão memoráveis que hoje é impossível, mesmo para quem não viu o filme, não reconhecer a clássica cena da Florista olhando para o Vagabundo pela primeira vez.
O enredo é muito básico, quase nulo, de certa forma é apenas um plano de fundo a partir do qual Chaplin se utiliza para desenvolver suas scketchs. Um Vagabundo perambula pelas ruas, até que um dia se encontra com uma Florista que rouba seu coração. Ele percebe que ela é cega, então ele parte em busca de meios de fazê-la recuperar a visão. Uma história de amor simples e sucinta. A forma hilária como Chaplin vai contar a forma como o Vagabundo vai conseguir recuperar a visão da amada é o grande mérito do filme.
Embora como mencionado o filme não possua a mesma profundidade de seus contemporâneos, é inegável que tem qualidades tão grandes quanto às daqueles. A direção de atores é formidável, tudo parece um ballet extremamente bem coreografado e sincronizado, sendo que as cenas ocorrem com uma harmonia deliciosa, talvez o auge da carreira de Chaplin, o que garante sequências ontológicas que até hoje remontam no imaginário do cinéfilo, mesmo após seus mais de 80 anos.
O Cinema muitas vezes é encarado como uma forma de entretenimento apenas, para outros, como uma forma de exprimir as sensações e desejos do homem, seus anseios e angústias, amores e medos, e tudo aquilo que é do espírito humano, mas não é sempre que o Cinema consegue ser as duas coisas, mas aqui, Chaplin faz o casamento perfeito entre ambas.

Por Gabriel Dominato.

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