Mesmo com atuações marcantes e premissa irreverente, “O Pintassilgo” é falho e se mantém à sombra do livro

A adaptação tem se tornado, cada vez mais, uma forma predominante de se desenvolver uma obra audiovisual. Desde transformando desenhos em live-actions até transpondo um livro para um filme, tal método de se desenvolver histórias acaba se tornando, além de um chamativo para os fãs, um risco de descontentamento em relação à obra original. Assim entende-se que O Pintassilgo, filme baseado na extensa obra de Donna Tartt, não atinge seu potencial e desencanta seus espectadores com duas horas e meias não muito bem trabalhadas.

Tendo cerca de setecentas páginas, o livro de mesmo nome apresenta uma história bela, profunda e simbólica, porém seu extenso tamanho e grande riqueza de detalhes acaba se tornando o maior empecilho na adaptação cinematográfica, que resume seus melhores momentos em sequências sem muita emoção ou sentimento. Assim, o longa acredita que os pontos principais da narrativa antes criados pela autora do livro seriam o suficiente para um filme por si só, porém, resumindo-se tantos momentos e relações de personagens, a obra perde sua profundidade e se torna apenas um emaranhado de momentos que se unem por um retalho de informações meramente rasas.

O potencial do filme, entretanto, não só se resumia à obra de Tartt, como também ao elenco de peso escolhido para representar seus personagens. Um filme com Ansel Elgort, Nicole Kidman, Jeffrey Wright, Luke Wilson, Sarah Paulson e Finn Wolfhard automaticamente acaba chamando, por si só, um significante público. Vale ressaltar, porém, que filmes como “No Caminho da Floresta” e “Operação Fronteira”, risivelmente, provam que um elenco eficiente não é o suficiente para manter a qualidade de uma obra. Os atores, mesmo que entregando atuações extremamente satisfatórias – quem imaginaria uma das crianças de Stranger Things interpretando um ucraniano bissexual viciado em drogas? –, ainda se mantém à mercê de uma narrativa cansativa que não consegue manter um sentido favorável ao público.

A relação do protagonista com a personagem Kitsey, por exemplo, é apresentada de forma rápida e jogada. Na infância, os personagens pouco interagem, mas basta uma rápida conversa na vida adulta para se apaixonarem. O relacionamento dos dois, mesmo tendo um papel relevante na trama, não é bem trabalhado a ponto de satisfazer o público em sua própria concepção – entende-se o por que dele existir naquele universo narrativo, mas não é o suficiente para que o espectador se importe.

Entre seus pontos positivos, pode-se considerar O Pintassilgo uma obra realmente bonita – assim como a pintura foco da história –, seja por sua fotografia, montagem ou trilha sonora. Tais fatores se juntam à trama de certa forma a desenvolver um produto final que, mesmo com mais de duas horas de duração, propicie um certo interesse no espectador. Assim como as atuações, não são o bastante para que o longa seja realmente bom, pois falha em entregar aquilo que, claramente, prometeu ao público: uma trama verdadeiramente complexa e simbólica

É possível concluir, assim, que a história de Theo Decker como um todo funciona muito melhor como um livro do que como um filme – principalmente porque grande parte de sua concepção poética se encontra na excessiva narração em primeira pessoa por parte do protagonista, algo que se torna inviável em um filme, por mais longo que este seja. Limitado em relação ao livro, portanto, O Pintassilgo consegue ser belo e atraente, principalmente por seus atores e reviravoltas, mas não bom o bastante para impedir que sua narrativa caia em uma grande quantidade de acontecimentos que, ao se remendarem assim como as antiguidades falsificadas de Theo, perdem o significado,  a emoção e o simbolismo que tinham o potencial de fazer desta uma obra propriamente profunda e marcante.

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