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“Prefiro não amar e não sofrer mais”. Filmes como ‘Garota Exemplar’ (2014), ‘Namorados para Sempre’ (2010), entre outros, já nos mostraram que o amor e o casamento nem sempre são um mar de flores, pelo contrário, estão mais para uma prova de resistência, dividindo bons e maus momentos nessa verdadeira montanha-russa que é nossas vidas. É com esse pensamento (à primeira vista pessimista, mas não de todo, pois os bons momentos também estão presentes no filme) que a jovem atriz e diretora francesa Maiwenn nos conta a história de Tony (Emmanuelle Bercot) e Giorgio (Vincent Cassell), explorando vários momentos da intensa vida amorosa do casal no filme ‘Meu Rei’, elogiado em Cannes (rendendo a Emmanuelle o prêmio de Melhor Atriz) e indicado a oito prêmios no César, o Oscar francês. Completam o elenco principal o experiente Louis Garrel (‘Os Sonhadores’, 2003), irmão de Tony e Isild Le Besco, uma amiga e cunhada.

Alguns podem considerar ‘Meu Rei’ um filme mais direcionado ao público feminino pela sua temática – até porque o melodrama romântico surgiu no cinema como uma resposta para as mulheres aos filmes de gângster masculinos na década de 30, além da própria teledramaturgia que se baseia nesse núcleo de eventos, embora clichês, como conflitos no lar, com a família, traições, gravidez e etc. Também pelo fato de Tony estar no centro da história e que todas as ações no filme vão afetá-la diretamente, claramente a tornando a única protagonista da trama. Mas, a verdade é que o filme é muito abrangente e relevante a ambos os sexos por falar primordialmente de relacionamentos, algo inerente a todos os seres humanos. A diretora Maiwenn busca conquistar a atenção do espectador através do apelo emocional, e consegue isso de forma muito eficiente, auxiliada por ótimos diálogos e grandes atuações, como contarei mais à frente.

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Crédito: Divulgação

‘Meu Rei’ conta com uma narrativa não linear, semelhante ao já citado ‘Garota Exemplar’, alternando os altos e baixos da relação entre Tony e Giorgio, mas não é apenas isso. Maiwenn faz uma metáfora interessante no início do filme, onde a protagonista sofre um acidente e rompe os ligamentos do joelho, e durante sua reabilitação é que faz uma reflexão de tudo o que passou ao lado do parceiro até o ponto no qual ela se encontra. Essa analogia da condição física debilitada com a condição psicológica na qual ela se encontra, indica que apenas quando atingir o equilíbrio perfeito entre as duas coisas, Tony estará pronta para seguir em frente. E o filme não faz grande alarde disso, na verdade até brinca com o espectador, que segundo palavras de uma própria personagem pode achar isso “psicologia barata” ou não. Os diálogos são essenciais para o sucesso do filme, e soam muito espontâneos, tornando bastante crível a relação entre os dois. Se o espectador consegue de alguma forma se enxergar em uma situação que os personagens estão passando, isso possibilita muito seu envolvimento com a obra, e o filme possui várias cenas que despertam essa sensação na plateia.

Emmanuelle Bercot entrega uma atuação primorosa como Tony, uma mulher decidida, aberta a novas experiências e ao mesmo tempo vulnerável, expressando muita visceralidade e paixão em suas cenas. A melhor atuação feminina do ano até aqui (sim, superando até nossa querida Sônia Braga). Mesmo quando passa do ponto e se torna exagerada, aparenta fazer parte da proposta da diretora em causar incômodo no espectador, e é o que ela faz (como na cena da festa com os amigos de Giorgio). Vincent Cassell não fica atrás, e convence tanto no humor “sarcástico” de seu personagem, quanto na camada misteriosa, sensível na conquista (não é um conquistador barato, há muita sinceridade nas suas ações), espontâneo e perigosamente impulsivo. Os dois dão um show sob o comando de Maiwenn. A trilha sonora de Stephen Warbeck, vencedor do Oscar por ‘Shakespeare Apaixonado’ (1998), também, encaixa perfeitamente nos momentos onde o filme expressa paixão, perigo e melancolia, além do ritmo do filme que funciona muito bem. A sensação de ter passado por tantos anos da vida dos personagens em apenas um filme só é possível graças a excelente montagem, que mesmo mesclando flashbacks na trama, sabe utilizar muito bem cortes contínuos nas sequências mais importantes, priorizando o realismo emocional que o filme quer passar.

Sendo assim, ‘Meu Rei’ é um filme bastante acima da média e vale a pena o “garimpo” para vê-lo no cinema. Não foi tão elogiado e premiado à toa e não sei da sua situação de elegibilidade ao Oscar, mas o consideraria um bom candidato a indicação de Melhor Estrangeiro, mesmo sendo um tema de relacionamento, que talvez não chame muito a atenção da Academia, aborda – entre muitas outras coisas – a questão da violência psicológica, um tema super atual. Grande trabalho de direção da jovem Maiwenn, entregando um filme cheio de cenas marcantes, com entrega e sintonia do elenco de forma impressionante. Ao deixar a resolução da história em aberto, a diretora nos mostra mais uma vez o que na verdade já sabíamos e o que diz aquela velha música: “Quem irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração, e quem irá dizer que não existe razão?”.

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Crédito: Divulgação




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