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O sentimento de admiração por Guerra Fria acontece logo no primeiro segundo. A tela menor, fechada em uma proporção 4:3 – também conhecida como “janela clássica” – é a primeira imagem do filme. Muito usada na televisão tradicional e nas telas dos computadores de antigamente, a proporção foi um clássico uso do cinema nos anos 50. Com o tempo, a proporção foi aumentando, até pela evolução das câmeras e dos próprios projetores dos cinemas. A escolha de Pawel Pawlikowski choca visualmente, porém, já demonstra imediatamente toda a proposta de sua obra.

Seu filme, então, revela um foco fechado apenas nos dois personagens principais, e na história, nada em volta é tão importante quanto Zula (Joanna Kulig) e Wiktor (Tomasz Kot) e a trajetória romântica do casal. Isso é apenas um pequeno ponto que transforma Guerra Fria em uma obra excepcional, como também um dos favoritos entre os indicados a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2019.

O uso da proporção também funciona como justificativa para a fotografia P&B – também realizada por Pawlikowski – característica que fortalece ainda mais as qualidades do longa, provando que nada é por acaso. O uso de uma fotografia P&B, nesse caso, não se demonstra gratuita ou com fraca justificativa de ser um retrato de uma história do passado. A escolha do polonês, então, além de seguir a linha do clássico, está também no fator de ser uma história passada, mas que ainda merece ser revisitada.

Nesse ponto, a narrativa do polonês é gratificante e encanta os olhos. O diretor – que além de diretor de fotografia também colabora no roteiro escrito por Janusz Glowacki – foge do tradicional tratamento romântico, como acontece no outro indicado Nasce Uma Estrela (2018), e explora uma narrativa mais dura e mais realista. Por mais que Pawlikowski não abuse do cenário geral, as situações históricas do momento influenciam gradativamente na trajetória do casal, transformando o relacionamento dos dois em uma guerra tão fria quanto a do conflito marcado durante 1945 e 1991.

As idas e vindas dos dois demonstram não só o embate romântico entre as distintas realidades, mas como também o amor não sofre com tempo e distância. Por isso temos um enquadramento mais fechado nos dois. Nenhuma data ou ambiente importa, apenas sua história. E isso faz tudo mais deslumbrante de se assistir.

A direção de Pawlikowski – merecidamente indicada ao Oscar – é o controle precioso para a emocionante narrativa amorosa. Muito está também no trabalho do montador Jaroslaw Kaminski, com quem Pawlikowski trabalhou em Ida (2014) – vencedor como Melhor Filme Estrangeiro em 2015. O dinamismo que Kaminski traz em tela faz de uma história aparentemente cansativa em algo envolvente e fortalece ainda mais a proximidade que o polonês colocou desde o primeiro segundo.

No entanto, Kaminski exagera nos momentos finais do longa, que traz uma narrativa apressada e que quebra um pouco do ritmo estabelecido por Pawlikowski durante todos os 90 minutos. O roteiro é outro que apresenta imperfeições durante momentos específicos, com seus diálogos mais abertos e expositivos. Pelos momentos de distância entre os personagens, Glowacki e Pawlikowski sentem a necessidade de atualizar a situação dos dois, o que torna tudo muito falado dentro de um produto visual.

Todavia, reforço o que foi dito anteriormente: nada em Guerra Fria é por acaso. Por isso, situações como essas, apesar de serem falhas dentro da narrativa do polonês, possuem justificativas. As situações vividas pelo casal exigem uma separação por mais tempo, o que, essencialmente, demanda uma acelerada na história, afinal, é injusto não mostrar o casal unido, já que sem dois, não existe guerra fria.

A riqueza da narrativa de Pawlikowski faz da obra – ao lado de Roma (2018) – a mais sensível do Oscar, ao mesmo tempo que as duas se mantém duras e poderosas. As indicações nas categorias de Melhor Fotografia, Melhor Diretor e Melhor Filme Estrangeiro são lindamente justificáveis dentro de uma tocante história que prova, ainda mais, que o amor não morre pelos embates, tempo ou distância, apenas se fortalece.  

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