James Laxton, Rodrigo Prieto, Greig Fraser, Linus Sandgren e Bradford Young. Pode ser que você não reconheça esses nomes, mas são eles que estão por trás dos filmes indicados ao Oscar desse ano. Agora você deve estar se perguntando porque menciono eles e não o Mel Gibson ou o Damien Chazelle. Pois saiba que quem transforma as imagens do roteiro em cenas são justamente diretores de fotografia, como eles.

Diretor de fotografia de ‘Lion’, Greig Fraser, é um dos indicados à categoria

Muitos imaginam que o diretor é o cara que faz o filme e não estão errados. Roland Joffé, o diretor de “Os Gritos do Silêncio” (1984) definiu seu trabalho como “jogar em um tabuleiro de xadrez multidimensional com multicamadas, exceto pelas peças do jogo que decidem mexer sozinhas”. Fernando Meirelles, com tom de humor durante entrevista para o canal do Youtube 10e20filmes, definiu que o diretor “é basicamente aquele cara que não sabe fazer nada, mas que junta uma equipe que sabe fazer e dá uma direção”.

Sendo assim, o diretor tem a função de trabalhar com o produtor de cinema para definir o elenco; organizar e selecionar as locações de filmagem; interpretar o roteiro; aprovar cenários, figurino, coreografia e música; coordenar o trabalho da equipe durante as filmagens; trabalhar com os cineastas nas composições de cena; trabalhar com os editores. Em outras palavras, o diretor é aquele que dá a visão geral do filme, mas muitas vezes nem chega a pegar em uma câmera.

É o diretor de fotografia que cuida das cores, das luzes, do enquadramento, dos ângulos, do foco, além de escolher, de forma criteriosa, os equipamentos que serão usados nas filmagens, como a câmera mais adequada, as lentes, os negativos. É o profissional que cuida de toda a parte visual do filme. Do mesmo modo que o produtor sempre está ao lado do diretor, ele também não sai do pé do diretor de fotografia, já que segue, geralmente, as diretrizes técnicas traçadas por esse especialista.

Como podemos ver, é mais um trabalho em conjunto do que necessariamente funções separadas. Mas, como o diretor é a principal voz de um filme, ele é o que junta todo mundo para que entendam o rumo da história e garantir que não ocorram divergências durante a produção, entre o diretor de arte e o de fotografia, por exemplo.

AS DIVISÕES DE TAREFAS INTERNAS DAS PRODUÇÕES

O departamento de fotografia tem quatro divisões. O primeiro é, obviamente, o diretor de fotografia, que tem um operador de câmera – aquele que controla a câmera e que faz os movimentos – como segunda divisão. É bom lembrar que, em muitos casos, o diretor de fotografia é o mesmo que opera a câmera, mas isso exige mais conhecimento e experiência na área. O departamento segue com o primeiro assistente de câmera ou foquista e é fechado com o segundo assistente de câmera. Normalmente, quem sonha em trabalhar com cinema  começa como todos os outros:  por baixo. Aos poucos, após ganhar mais experiência, vai subindo no departamento.

E o diretor não fica tem a ajuda apenas do diretor de fotografia. Para isso, temos também o produtor, o diretor assistente, o sonoplasta… Alguns diretores, inclusive, utilizam muito do diretor assistente para supervisionar locações, gravar uma cena menor ou, até mesmo, descrever uma cena para sua equipe e a deixar trabalhar.

Mas enquanto temos aqueles que dividem as tarefas, também temos aqueles que fazem tudo. Woody Allen é um bom exemplo disso, já que ele, além de atuar, escreveu e dirigiu seus filmes. De acordo com o Internet Movie Database, do The New York Times, Mel Brooks, de “O Jovem Frankenstein” (1974) é outro que também já escreveu muitos roteiros dos filmes que dirigiu e produziu.

Rodrigo Prieto, diretor de fotografia e indicado ao Oscar 2017, ao lado de Martin Scorsese nos bastidores de ‘Silence’

O diretor tem a palavra final para deixar o filme com a cara que ele quer. Com o diretor de fotografia também não é diferente:  ele pode colocar muito de sua própria visão ou de suas próprias ideologias naquelas imagens, utilizando certa luz ou determinada coloração. Em “Laranja Mecânica” (1971), por exemplo, John Alcott determinou qual seria a Londres mais adequada para a história de Alex e seus drugues. “Laranja Mecânica empregava um tipo de fotografia mais escura, mais obviamente dramática (…) Foi uma história moderna que ocorreu em um período avançado da década de 1980. Chamava por uma coisa mais fria”, disse Alcott, parceiro de Stanley Kubrick.

“Laranja Mecânica chamava por uma coisa mais fria”, disse o diretor de fotografia John Alcott

Caso você, mesmo depois de ler as definições, esteja achando que o diretor de fotografia também é o profissional que tira as fotos para os pôsteres ou para divulgações, saiba que esse é o fotógrafo de still, ou seja, aquele que registra fotos paradas, que podem ser usadas para pôsteres, jornais e revistas, além de também poder ajudar o trabalho do diretor, fotografando o set.

GRANDES NOMES DA FOTOGRAFIA

E na direção de fotografia temos nomes tão poderosos quanto na direção, por exemplo, Emmanuel Lubezki, que ganhou três Oscars seguidos trabalhando com Alfonso Cuarón em “Gravidade” (2013) e com Alejandro Iñárritu em “Birdman” (2014) e “O Regresso” (2015). Temos também Robert Richardson, que fez produções excepcionais com Quentin Tarantino, (“Django Livre”, 2012)  Martin Scorsese (“Ilha do Medo”, 2010) e Oliver Stone (“Nascido em Quatro de Julho”, 1989). Gregg Toland e Vittorio Storaro são outros grandes nomes da direção de fotografia, que trabalharam em “Cidadão Kane” (1941) e “Apocalypse Now” (1979), respectivamente.

No Brasil, temos grandes representantes, alguns até no mesmo nível que outros citados aqui, como Edgar Brasil, do longa “Limite” (1931), considerado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) o melhor filme brasileiro de todos os tempos.

Walter Carvalho e Murilo Salles também ganham destaque no cinema brasileiro e ainda conseguiram ir da direção de fotografia para a direção, algo não muito raro no cinema, mas que muitas vezes não dá certo. Os dois fizeram filmes como “Budapeste” (2009) e “Nome Próprio” (2007). Nicolas Roeg, como os brasileiros, também migrou da fotografia para a direção e se deu bem, realizando trabalhos como “O Homem que Caiu na Terra” (1976) e “Inverno de Sangue em Veneza” (1973).

Walter Carvalho passeou pelas duas direções, começando com a de fotografia

Apesar de mostrar muitas das diferenças e das divisões de trabalho entre o diretor e o diretor de fotografia, o cinema gera suas surpresas e traz parcerias maravilhosas. Queridinho e companheiro de Scorsese, Michael Chapman é o cara por trás da fotografia urbana e da sincronia entre ambiente e personagem presente em filmes como “Taxi Driver” (1976) e “Touro Indomável” (1980), filme esse que rendeu uma indicação ao Oscar.

Além de Scorsese, Spielberg também tem seu parceiro de longa data, Janusz Kamiński, presente em “A Lista de Schindler” (1993), “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), “Lincoln” (2012), “Prenda-me Se For Capaz” (2002), “Munique” (2005), “O Terminal” (2004), “A.I. – Inteligência Artificial” (2001) e por aí vai. Kamiński já levou dois Oscars, um por “A Lista de Schindler” e outro por “O Resgate do Soldado Ryan”.

Walter “Wally” Pfister, mais conhecido como os olhos de Christopher Nolan, é outro diretor de fotografia que se deu muito bem com sua parceria. Ou seria o contrário? Os dois trabalharam em “Amnésia” (2000), após Nolan encontra-lo em “The Hi-Line” (1999) e, a partir daí, foi só sucesso:  “Insônia” (2002), “Batman Begins” (2005), “O Grande Truque” (2006), “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008), “A Origem” (2010), que rendeu a Pfister o Oscar.

“Nossa colaboração e nosso relacionamento evoluíram de uma forma fenomenal […] Nós desfrutamos do estilo de cinema verité. Chris ama a liberdade que isso dá a ele e aos atores, e eu amo o aspecto visual do estilo”, disse Pfister ao site Diretores de Arte. Durante as filmagens de “Insônia”, ele conta que chegou a dirigir Al Pacino: “Eu não ia dizer a Al Pacino como fazer o seu trabalho, mas eu estava esperando que ele pudesse abraçar a luz do ambiente em sua atuação […] ‘Quando você estiver nas sombras, vai interagir com o clima do ambiente. Se você der um passo à frente, vai entrar em uma fusão de luz nuclear brilhante’. Ele soube exatamente como tirar proveito disso”, contou.

Steven Spielberg ao lado de seu parceiro Janusz Kamiński

E se mesmo com tudo isso você, caro leitor, ainda acredita que o trabalho do diretor de fotografia não é grande coisa, vamos a alguns exemplos.

Em “O Poderoso Chefão” (1972), temos uma ambientação escura, que dá um tom todo pesado, quase claustrofóbico. Por isso, tem-se uma sensação dramática, muito do que é o filme. Toda essa iluminação escura e soturna faz você entrar no clima daquela história, assim como todo o jogo de luzes em Michael e Vito Corleone traz muito da personalidade deles. Isso é perceptível nas cenas em que se mostra apenas metade do rosto dos personagens, deixando a outra encoberta pela sombra, ou seja, há um lado bom, que fará tudo pela família, mas para isso, possa ser preciso matar. E isso não se deve a Coppola, mas sim ao brilhante diretor de fotografia Gordon Willis.

“Medo e Delírio em Las Vegas” (1998) é outro caso interessante. O diretor de fotografia Nicola Pecorini decidiu utilizar grandes angulares para closes fechados, justamente para passar uma sensação de algo distorcido e psicodélico e dar uma sensação de liquidez.

No Brasil, isso também não foi diferente. Walter Carvalho, em “Abril Despedaçado” (2001) conseguiu transmitir melancolia – que geralmente funciona melhor com cores frias – com tons quentes, já que a história se passava no sertão nordestino.

Ainda sem muita valorização pelo grande público, é o trabalho do diretor de fotografia que transmite as emoções através da cena. Entre James Laxton, Rodrigo Prieto, Greig Fraser, Linus Sandgren e Bradford Young, que vença a melhor câmera, o melhor foco e a melhor lente.

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