Sedutoramente assustador, “O Estranho que Nós Amamos” vai te surpreender

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Filha de um dos diretores mais importantes e respeitados do cinema norte-americano, Sofia Coppola venceu este ano o prêmio de Melhor Direção em Cannes – a primeira mulher nos últimos 50 anos a receber a honraria. O sucesso nos festivais não é de hoje, desde sua estreia diretorial em “As Virgens Suicidas”, todos os seus filmes receberam algum tipo de indicação ou prêmio em festivais importantes, como Veneza ou o próprio Cannes.

Vencedora do Oscar de Melhor Roteiro Original em 2004, Sofia pode não ser tão reconhecida como seu pai, mas vem construindo uma carreira muito sólida dentro do cinema independente. Embora existam algumas variações entre eles, seus filmes representam muito a maneira como ela enxerga o mundo, graças a sua criação no berço de ouro do cinema e das celebridades.

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O filme que rendeu a diretora seu prêmio em Cannes é “O Estranho que Nós Amamos”, baseado na obra de Thomas Cullinan. O longa se passa durante a Guerra Civil nos EUA e conta a história de como a rotina de uma escola só para garotas muda completamente com a chegada de John (Colin Farrell), um cabo ferido de guerra à beira da morte.

Miss Martha (Nicole Kidman) é a gestora da casa, e conta com a ajuda de Edwina (Kirsten Dunst) para ensinar as alunas Alicia (Elle Fanning), Amy (Oona Lawrence), Jane (Angourie Rice), Marie (Addison Riecke) e Emily (Emma Howard). Como todos os homens estão servindo na Guerra de alguma forma, elas fazem absolutamente todas as tarefas em casa, das mais simples até o trabalho braçal.

Lembrando que o livro já havia sido adaptado para o cinema em 1971, na versão de mesmo nome dirigida por Don Siegel e estrelada por Clint Eastwoood. No entanto, a nova versão não é um remake do filme anterior, mas uma adaptação diferente da mesma história. Esse já é um ponto importante para entendermos o filme, pois havia surgido a polêmica sobre o porquê de Sofia ter cortado a única personagem negra da história na sua versão.

A diretora respondeu que considera a discriminação racial um tema tão importante que o tipo de história que queria contar era outro, e não gostaria de abordar esse tema de maneira superficial. De fato, é uma resposta bastante aceitável, pois o filme é bem conciso e objetivo, e pela sua filmografia podemos dizer que temas muito abrangentes como este não combinam com seu estilo, como veremos mais à frente.

 

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Para mim, embora seus filmes se passem em lugares, eventos e períodos históricos importantes (como “Maria Antonieta”, por exemplo), o essencial nas suas histórias é o elemento humano. Seus filmes têm uma atmosfera muito intimista, que buscam explorar o interior dos personagens. Sua beleza melancólica me faz lembrar das obras de Edward Hooper (imagens comparativas abaixo). E esse elemento também está presente em “O Estranho que Nós Amamos”.

Mais do que a Guerra em si, o que está em evidência é como a chegada de um elemento externo (neste caso um homem, com o agravante de ser de uma tropa inimiga) muda toda a dinâmica já estabelecida de um grupo de pessoas (neste caso as mulheres, aumentando a disputa por atenção e aflorando traições, ciúmes, vaidades e intrigas que estavam adormecidos dentro delas). Isso nada mais é do que a natureza humana tomando seu curso, e o filme explora de maneira incrível.

Sofia prova mais uma vez sua qualidade na direção, aliando tudo aquilo que sabe fazer de melhor: história de personagens complexos e melancólicos com habilidade na composição e uma elegância estética que poucos têm a sensibilidade e olhar para os detalhes como ela faz. Por mais que pareça uma história simples, há tantas variáveis que ela consegue dar significado por meio de sutilezas, como por exemplo a personagem da sua queridinha Kirsten Dunst, Edwina.

Em certo momento, John pergunta a Edwina se ela pudesse ter qualquer coisa no mundo, o que ela desejaria. Ela responde algo como “queria que me tirassem desse lugar”. Muitos protagonistas nos filmes de Sofia são jovens incompreendidos, reprimidos pela sociedade. Pessoas que querem desfrutar suas vidas, mas sofrem pressão de fatores externos que as acabam impedindo de ser quem realmente querem.

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(À esquerda, o quadro Night Window de E. Hooper. À direita, John (e nós, espectadores) observamos Edwina na janela)

No caso do filme, a Guerra acabou com a liberdade das pessoas. Famílias foram separadas e cidades destruídas. E como Sofia reforça esse aprisionamento dos personagens? A própria casa onde as garotas vivem remete várias vezes a uma prisão, seja pelas grades do portão ou pelas colunas que sustentam aquele lugar. O figurino também expressa muito o aprisionamento interno de seus desejos.

Fica claro que o desconforto causado com a chegada de John não é apenas por ele ser da tropa inimiga, mas há uma latente tensão sexual envolvida, que afeta especialmente Miss Martha por representar justamente a tentação que suas orações tanto tentavam afastar. Seus vestidos apertados até o pescoço tentam abafar suas reais intenções e desejos, mas a natureza humana não pode ser disfarçada para sempre. Faltava apenas um elemento desestabilizador.

Primeiramente recebido como inimigo, logo o charme natural e sensibilidade de John conquista a confiança das mulheres. Mas esse não é um filme de romance, sequer um drama de época. Pode não parecer a princípio, mas aos poucos o espectador vai se dando conta de que está diante de uma história sedutoramente assustadora. O medo e a paranoia pelo clima instável de guerra vão tomando corpo gradativamente, e Sofia consegue transformar o filme em um thriller de suspense de arrepiar a espinha. Afinal, quem mais assustador do que os próprios seres humanos?

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Todo o elenco dá um espetáculo de atuações, mas o destaque vai para o trio Nicole Kidman, Colin Farrell e Kirsten Dunst. Não me surpreenderia com mais uma indicação para Nicole pelo papel. É incrível como seus personagens vão se transformando ao longo da história em tão pouco tempo, e muito desse mérito vai não apenas para o roteiro brilhantemente escrito, mas pela condução de Sofia e a entrega visceral do trio principal.

Tecnicamente, o filme também é um primor. Como de costume, Sofia usa o silêncio em vários momentos para dar mais peso a atmosfera de insegurança da ocasião, causando certo desconforto. Sutilmente, barulhos de canhões e sons da natureza se misturam com a trilha sonora, em uma composição discreta, porém muito interessante. E as imagens criadas são verdadeiras obras de arte, contrastando a baixa iluminação que as velas proporcionam com a luz natural externa, de portas e janelas.

Sendo assim, “O Estranho que Nós Amamos” já desponta como um dos melhores filmes até o momento, em um ano com poucos grandes destaques, é verdade. Uma história cheia de nuances, que consegue “jogar” com a expectativa do público, parecendo ir em uma direção, mas surpreendendo. Como diz Miss Martha “coragem é fazer o necessário na hora certa”, e as consequências de seus atos esses personagens nunca irão esquecer. Isso é característica dos grandes filmes.

E você, já assistiu ou está ansioso para ver? Concorda ou discorda da análise? Deixe seu comentário ou crítica (educadamente) e até a próxima!

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