“Terra Selvagem” trata a questão do luto de maneira sensível, mas ao mesmo tempo brutal e impressionante

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“Terra Selvagem”, thriller que estreia essa semana nos cinemas do Brasil, foi um dos maiores destaques do prestigiado Festival de Cannes este ano. Indicado a três prêmios, rendeu ao diretor Taylor Sheridan um prêmio especial de melhor direção. No filme, Cory (Jeremy Renner), um rastreador de predadores selvagens descobre e acaba se envolvendo na investigação de um brutal assassinato de uma jovem local – buscando uma espécie de redenção por erros do passado. A história se passa na Reserva Indígena Wind River (título original do filme), uma das maiores e mais frias dos EUA, constantemente castigada por nevascas.

Uma das coisas que mais gostei no filme – e em todos os outros trabalhos de Taylor Sheridan – é a maneira muito eficiente como a história trabalha o subtexto. Através de crimes brutais e misteriosos, seus filmes funcionam como um alerta sutil, mas poderoso, para injustiças e contradições da sociedade. Seus protagonistas normalmente são pessoas solitárias, vítimas do sistema que passaram por traumas no passado e buscam acima de tudo justiça, mesmo que seja pelas próprias mãos. Não conseguimos sentir nada além de empatia por eles, pois representam uma réstia de esperança e decência neste mundo podre e desigual em que vivemos.

Para contextualizar, em agosto de 1973, Mark Oliphant, um morador “não-indígena” de uma Reserva em Washington, foi acusado por policiais tribais de agredir um oficial local e resistir à prisão. Ele apelou para um Habeas Corpus alegando que a polícia local não tinha o direito de processá-lo por ele não ser indígena. Tribunais inferiores negaram o pedido de Oliphant, mas o caso acabou indo para o Supremo Tribunal dos EUA. O Supremo reverteu a decisão afirmando que tribunais indígenas não teriam tal jurisdição, a não ser que fossem autorizados pelo Congresso.

Desta forma, as tribos não tinham mais direito de prender e processar “não-indígenas” que cometessem crimes nas suas reservas. Se o criminoso não fosse indígena, apenas um agente com certificação Federal (FBI) deveria efetuar a prisão. Desta forma, Oliphant escapou e ficou muito claro que tal decisão incentivaria vários crimes graves com grande risco de passarem impunes nas Reservas dali em diante. Assim, de volta ao filme, a polícia local solicita o auxílio da agente do FBI Jane Banner (Elizabeth Olsen), que fica encarregada da investigação.

No entanto, Jane está muito longe de casa. Bonita, aparentemente frágil, inexperiente e deslocada, acaba despertando suspeitas de suas capacidades em resolver o caso, sendo julgada silenciosa e verbalmente pelos policiais e moradores conservadores da região. Mesmo sem sabermos nada sobre seu passado, como espectadores, essa também é a nossa primeira impressão. Como a vítima era indígena, o contexto histórico explicado no parágrafo anterior ainda contribui para hostilidade por parte da família. Subestimada e sem ideia de como agir, sua única chance é formar uma parceria com Cory e aplicar a justiça capturando o criminoso.

 

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Outro aspecto que funciona bastante no filme é a paisagem. Nevascas que vêm e vão, lobos e leões atacando constantemente, mostram como os moradores precisam aprender a sobreviver naquele lugar esquecido por Deus. A paisagem inóspita coberta por neve e decorada por altos pinheiros e montanhas – captada pelas lentes de Ben Richardson (do “selvagem” “Indomável Sonhadora”) – é um deleite para os olhos, ao mesmo tempo em que expressa toda a instabilidade da situação e da região, contribuindo para o suspense. Nessa terra onde é cada um por si, mas ao mesmo tempo todos se conhecem, em quem confiar?

Roteirista de filmaços como “Sicário: Terra de Ninguém” e “A Qualquer Custo” – este último que lhe rendeu uma indicação ao Oscar no ano passado – Sheridan demonstra conhecer muito bem os elementos que o gênero pede, concebendo um grande e diferente thriller sobre como lidar com a perda e a dor. É interessante como evolui a cada trabalho, com um estilo de direção visceral (com momentos surpreendentes e brutais), mas ao mesmo tempo, expressando uma delicadeza muito tocante pela maneira como aprofunda seus castigados personagens. Há uma cena simbólica muito comovente entre um cowboy e um índio – inimigos históricos nos EUA – unidos pelas perdas em comum: “Você nunca mais será o mesmo, completo de novo, mas aprenderá a viver com a dor e permitirá reviver na sua mente os bons momentos que teve”.

Se hoje a violência doméstica pode ser punida nas reservas, graças a uma revisão na lei, muitos casos de desaparecimentos, estupros e assassinatos ainda estão longe de serem resolvidos. Com ótimas atuações – que pode render a Renner mais uma indicação -, boas motivações e um cenário que funciona como um próprio personagem, com a instabilidade do clima e sensação de isolamento, “Terra Selvagem” surge para denunciar esse problema. Um faroeste moderno que trata a questão do luto de maneira muito sensível, mas enquanto filme de ação, não se esquece de ser brutal e impressionante. Um dos melhores filmes do ano até aqui.

E você, já assistiu ou está ansioso para ver? Concorda ou discorda da análise? Deixe seu comentário ou crítica (educadamente) e até a próxima!

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