WARCRAFT – O PRIMEIRO ENCONTRO DE DOIS MUNDOS

Warcraft

Para quem não conhece, ‘Warcraft’ é uma série de jogos e livros do gênero fantasia, criada pela Blizzard Entertainment. O primeiro jogo de computador foi um dos pioneiros na estratégia em tempo real, em uma época onde ainda se usavam aqueles disquetes (mais alguém se lembra disso?), lançado nos EUA em 1994. O jogo foi tão revolucionário e seu sucesso foi tão grande que Warcraft logo se tornou um universo explorado em várias mídias, como jogos de tabuleiro, de cartas, RPG e como eu mencionei no início, livros. Portanto, era uma questão de tempo para que o jogo ganhasse uma versão cinematográfica também.

E o filme ‘Warcraft’ foi anunciado em 2013 pela própria Blizzard, em conjunto com a Universal Pictures. Após alguns adiamentos na estreia devido a estratégia de lançamento (originalmente o filme seria lançado na mesma época de ‘Star Wars: Episódio XVII’, mas imaginem se seria uma competição justa?), o projeto roteirizado por Charles Leavitt (de ‘Diamante de Sangue’, 2006), baseado na história e personagens de Chris Metzen – um dos melhores criadores e designers do universo dos games de RPG – trouxe o jovem diretor Duncan Jones, fã do jogo e responsável pelos ótimos ‘Lunar’ (2009) e ‘Contra o Tempo’ (2011) para entregar um filme de duas horas que conseguisse manter a essência do game, mas ao mesmo tempo com uma linguagem cinematográfica interessante para aqueles que não conhecem a história. E querem saber o resultado de tudo isso? Funcionou muito bem.

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A base da história é praticamente a mesma do jogo original, onde há dois mundos, o dos Orcs e o das outras criaturas, como humanos, Elfos e Anões, que vivem pacificamente entre seus reinos. Mas, o mundo dos Orcs fica sem vida e passa a ser inabitável pela falta de recursos, fazendo com que seu perverso líder Gul’dan (Daniel Wu) abra um portal para Azeroth (não perca seu raciocínio), o mundo dos humanos, para escravizar a raça humana, que lhe fornece uma espécie de energia, aumentando seu poder. Cabe então ao Rei Llane (Dominic Cooper) e o bravo guerreiro Lothar (Travis Fimmel) encontrar o Guardião das terras Medivh (Ben Foster), para criar uma estratégia de como defender seu mundo da invasão Orc.

Talvez à primeira vista, todos esses nomes e criaturas pareçam um tanto confusos, não é mesmo? Mas, o interessante é que o filme apresenta o universo e os personagens de forma bem direta e se atendo ao essencial. Não há aqui uma longa narração que conta a criação dos mundos e como aqueles personagens surgiram, o que pode parecer um problema, mas na verdade não é, pois, o espectador não acaba “bombardeado” com um monte de informações logo de cara e consegue usar a imaginação para pensar sobre tudo aquilo que está vendo. Como a motivação dos Orcs de invadir é bastante clara no início – e seu vilão é bem caricato, uma representação do mal mesmo – logo a motivação dos homens também é, de se defender da invasão. Portanto, foi uma solução de roteiro interessante e que funcionou muito bem.

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Como eu disse, o roteiro toma decisões bem práticas, e na sua maioria acerta bastante. Ficam algumas ressalvas, como a forma como as outras criaturas se recusam a entrar na Guerra (até porque de certa forma, o que está em jogo é seu próprio universo). Há também uma sub-trama, para dar um tempero, de personagens infiltrados, mas as constantes mudanças de lado e traições, acabam não sendo muito bem desenvolvidas como poderiam. Para aquele espectador que o filme fisgou desde o início, isso é fácil de ser relevado, mas se há alguém que ainda está meio cético quanto à história, acaba sendo um ponto fraco do roteiro. E a última ressalva é quanto ao final, que fica um tanto apressado. É compreensível, por ser um filme de duas horas de duração (apesar de alguns filmes de super-heróis acharem que precisam de três horas para montar suas “brilhantes” tramas), mas por outro lado, sem dúvidas, o clímax de um filme é um dos momentos mais importantes para o seu sucesso, para ser memorável e gerar aquela catarse no espectador, e da forma como a sequência final ocorre, o resultado acaba sendo não tão impactante como poderia.

Mas, os pontos positivos são muitos, principalmente na direção de Duncan Jones. As cenas de ação são muito bem dirigidas, com a coreografia e interação muito bem-feitas e como há bastante tempo não se via, com as criaturas e os humanos se digladiando em combate. Um êxito da direção é conseguir mostrar a ameaça que os Orcs representam e sua brutalidade, sem precisar apelar para cenas gráficas, cheias de sangue ou cabeças arrancadas, por exemplo. Isso permite também alcançar um público maior entre os adolescentes, sem ficar naquela briguinha “fofa” de fantasia, onde parece que ninguém se machuca. Por que isso é importante? Porque se o espectador teme pela vida dos personagens, isso possibilita que ele se envolva emocionalmente com eles, o que é essencial para gostar de um filme (Game of Thrones que o diga…).

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Mas, os elogios mais importantes vão para o aspecto visual do filme, onde a concepção das criaturas é espetacular, com um visual diferente de muito que já vimos no cinema, assim como seu universo que tem muitas florestas e aldeias contrastando com a belíssima cidade do reino, tudo bastante rico em detalhes. E esses detalhes vão desde a decoração dos ambientes, como bandeiras, armaduras e figurinos impecáveis até os poderes dos personagens e a forma como eles trabalham na sociedade (esculpindo monstros, construindo pequenas aldeias e etc.), que para quem é fã de games RPG (afinal, esse é o público-alvo do filme), com certeza vai proporcionar um prazer enorme ao ver tudo aquilo representado numa tela de cinema. E a maior homenagem que Duncan Jones faz aos fãs do game são as tomadas aéreas em batalha, absolutamente sensacionais, ao ponto de quase fazer cair uma lágrima dos olhos, relembrando o visual do jogo original.

A contribuição do elenco também é excelente, onde a grande surpresa é o protagonista humano Travis Fimmel, que teve bastante destaque na série ‘Vikings’, mas que honestamente, eu não o conhecia. É um protagonista bem carismático, meio canastra às vezes, mas que entende o peso da responsabilidade da Guerra e consegue passar isso ao espectador. Apesar de seu arco bem comum e previsível com seu filho, o ator se mostra uma excelente opção para este tipo de filmes futuramente. Paula Patton e Toby Kebbell estão irreconhecíveis (aí você me pergunta, jura?), como as criaturas Garona e Durotan, mas desempenham bem seus papéis também, sendo que este último já tem uma boa experiência com este tipo de personagem (interpretou o perigoso Koba em ‘Planeta dos Macacos’). O sempre ótimo Ben Foster como o Guardião Medivh e seu ‘aprendiz’ Khadgar (Ben Schnetzer), também entregam boas atuações, cada um com suas qualidades bem idiossincráticas.

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Sendo assim, ‘Warcraft’ consegue preencher muito bem a lacuna de épico de fantasia deixada pelo premiadíssimo ‘O Senhor dos Anéis’ no cinema. Apesar de eu achar que esta produção não tenha essa pretensão de conquistar prêmios – até porque vivemos em uma época bem diferente no cinema do que vivíamos há 15 anos. Duncan Jones e a produção acertam por tomar algumas decisões corajosas no desenrolar da trama e por conceber um filme de visual e estrutura próprios, sem a pretensão de querer se comparar com o sucesso do seu antepassado. Como um primeiro contato com o universo, o filme acerta por ser direto e prático, deixa ganchos para possíveis continuações, e se chegar a esse ponto aí sim pode desenvolver melhor a história como um todo. Apesar de uns problemas mencionados aqui, especialmente quanto à falta de clareza nas ações dos personagens em alguns momentos, o design de produção é muito caprichado e o filme contém carga dramática capaz de emocionar, não é apenas um show de pirotecnia. Após alguns anos meio que negligenciadas, as grandes aventuras de fantasia do cinema ganham um novo suspiro, com o universo dos Orcs, humanos e outras criaturas mágicas de Warcraft. Agora, resta saber se as críticas e a bilheteria irão permitir que este universo continue por mais tempo. E vocês, o que acham?




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