Zumbis se tornaram uma espécie de monstro consolidado na ficção, se mantendo central em um grande número de livros, filmes e séries. Desde o primeiro filme de zumbis, “White Zombies”, de 1932, até a moribunda “The Walking Dead”, o cenário pós-apocalíptico repleto de criaturas morto-vivas está, aos poucos, se tornando batido e repetitivo, o que exige, cada vez mais, uma inovação no formato para que a obra se torne bem-sucedida.

Brincando com tal consolidação e quebrando a quarta parede, Zumbilândia: Atire duas vezes começa, inclusive, com a narração do personagem Columbus agradecendo ao espectador por, dentre tantas opções de filmes de zumbis, ter escolhido assistir justamente este. A escolha do espectador, assim, se mostra extremamente recompensadora: a continuação do filme de 2009 se mostra maior, melhor e ainda mais engraçada que o anterior.

O público é, inicialmente, convidado a rever o grupo protagonista composto por Columbus (Jesse Eisenberg), Tallahassee (Woody Harrelson), Wichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin), quatro pessoas que, juntas, compuseram uma família disfuncional em meio ao fim do mundo. Novos personagens são adicionados à trama conforme a narrativa se desenrola, acrescentando personalidades que compõem uma inovação à já consagrada realidade do primeiro longa.

Destaca-se a personagem Madison (Zoey Deutch), que pode até mesmo propiciar incomodo inicial ao espectador por ser um significativo estereótipo ambulante, mas ao longo do filme conquista inúmeras risadas do público com um humor escrachado e totalmente inusitado. O segundo novo personagem que mais chama a atenção do público é Berkeley (Avan Jogia), que, compondo uma caricatura hippie das mais exageras – e, ao mesmo tempo, cômicas –, representa o extremo oposto de Tallahassee: músico independente, vestindo roupas largas e seguidor de uma ideologia pacifista, o que não só incomodam o personagem de Woody Harrelson como também conquista o interesse amoroso de Little Rock.

Estes novos personagens, junto com Nevada (Rosario Dawson), auxiliam no desenvolvimento dos protagonistas, cujos diálogos e interações não só fortificam o que já era conhecido pelos espectadores, mas acrescenta na construção de cada personalidade. É possível, assim, ver um lado diferente de Little Rock a partir de seu romance com Berkeley, entender mais sobre a dinâmica do casal principal a partir da entrada de Madison em cena e, por fim, se aprofundar na persona de Tallahassee a partir de sua interação com Nevada.

Além do desenvolvimento de personagens necessário para uma continuação, Zumbilândia: Atire Duas Vezes faz aquilo que o primeiro filme fez muito bem: utiliza da situação pós-apocalíptica para gerar um humor extremamente caricato, beirando o besteirol. As situações as quais guiam o roteiro são vezes clássicas de histórias de zumbis (como pessoas que se descobrem infectadas ou se ver cercado pelos morto-vivos) e vezes ridículas a ponto de tirar risadas do público por suas aleatoriedades e absurdos – muitas vezes maiores do que as do primeiro filme. Um outro ponto que marca o humor do longa-metragem são as referências: não se importando em quebrar a relação de sentido com sua realidade proposta, um grande número de referências à cultura pop marca pontualmente o humor do filme, se aproximando da abordagem do filme Deadpool – poderia se considerar, assim, que Zumbilândia 2 é, para os filmes de zumbis, o que filme do mercenário tagarela foi para as histórias de herói.

Forçado, mas hilário, o longa-metragem definitivamente não foi feito para se levar à sério, e esta é exatamente a proposta do filme: fazer o espectador rir, sem precisar fazer sentido. Em determinado ponto, um significativamente longo plano sequência marca a narrativa, com uma perseguição caricaturesca entre dois zumbis e os personagens Tallahassee e Columbus – enquanto o espectador, em parte, teme pela vida dos personagens, se delicia com a situação como um todo, gargalhando com as insanas trapalhadas que compõem este plano. Valendo ressaltar que, durante os créditos, há uma cena especial que agradará bastante àqueles com um repertório significativo de cinema.

Além da comédia, o drama marca determinados momentos do roteiro, onde o espectador é convidado a se emocionar com os personagens que conhece desde o primeiro filme, seja por relações fraternais, situações de quase morte – ou, até mesmo, sacrifícios – e com a noção de separação do grupo principal. Porém, novamente, não se pode esquecer que o que dá significado à franquia Zumbilândia é o humor escrachado, e não o drama ou, muito menos, os momentos sentimentalistas – pois estes podem, muitas vezes, ser considerados um tanto forçados.

Assim, diferente de grande parte das franquias da atualidade, Zumbilândia: Atire Duas Vezes acerta ambos seus tiros, fazendo em sua segunda tentativa uma obra maior, melhor e mais engraçada do que sua anterior. Zumbis, música, maconha e ainda mais zumbis marcam a narrativa ridiculamente cômica de uma história criativa e, ao mesmo tempo, bastante inteligente – mesmo que seus personagens não o sejam.

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