Dois Remi

O canalha pode ser o herói do mundo pós-moderno. Como ele mesmo, o mundo é corrupto, hipócrita e violento, portanto a amoralidade é uma saída do subconsciente para ser são em um ambiente insano. Quando falamos de Dostoievsky, sempre vem à tona o tema da ética. Em seu romance ‘O Duplo’ não seria diferente, pois aqui adaptado a moda francesa por Pierre Léon, ‘Dois Rémi, Dois’ ao invés do anterior de língua inglesa ‘O Duplo’ (Richard Ayode) de 2015, a abordagem é de uma comédia de humor negro.

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Claro que o tom francês é sempre partindo do princípio de que o expectador já conhece a obra original, portanto, desenvolvimento de personagens e exposição de conflitos são sempre naturalistas, não manipulativos como fazem na América. Uma herança marcada pela geração da “Nouvelle Vague” de Truffaut e Goddard, portanto este é um filme para um público que sabe onde está pisando.

A premissa parte da ideia de um sósia de Remí Pardon (Pascal Cervo) aparecer em um momento decisivo de sua vida monótona, vivendo com o irmão, e indeciso quanto a sua relação com a filha do dono da empresa em que trabalha, a linda Delphine (Luna Picoli-Truffaut, neta do diretor). O seu sobrenome não é acaso, pois ‘Pardon’ é ‘desculpe’ em francês, uma clara amostra da fragilidade introspectiva do personagem.

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A curta duração do filme, cerca de 1h e 6minutos, expõe uma direção leve com ritmo indeciso entre crítica mordaz e comédia, o que pode complicar um pouco o rumo da história a ser contada. Seu sósia transpira confiança e um certo olhar atrevido, coisa que Cervo mostra de forma discreta e precisa em sua atuação, mas, a falta de concisão narrativa deixa a desejar a conclusão de Léon na direção. O que Pardon poderá fazer com um ‘eu’ mais carismático e verdadeiro disputando seu lugar no mundo?

Ele é a representação de seus desejos, assim como em ‘O Homem Duplicado’ (2014), onde o ator é o ideal de liberdade para o professor sufocado pela presença da mulher em sua vida, na estranha cena da aranha gigante no banheiro. A dualidade do ser humano será sempre um tema perene, mas no caso de ‘Dois Remí, Dois’ faltou a ousadia de Villeneuve e o surrealismo de Ayode. Fica para a próxima.




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