Mãe só Há Uma

Após dirigir um dos melhores filmes do ano passado, ‘Que Horas Ela Volta?’, que estabelece o choque de gerações atualíssimo da mobilidade da classe C para estremecer os alicerces do passado da classe média, Anna Muylaert volta com o tema mãe e filho, desta vez inspirado no famoso caso Pedrinho. O garoto separado no nascimento dos pais biológicos que trouxe verdadeira comoção midiática ao Brasil.

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Crédito: Divulgação

Claro que desta vez o plano de direção tem uma imaginação dramática mais livre e com amarras mais eficientes e explosivas, o que torna esse filme muito mais intenso, contido até o momento certo. Pierre (Naomi Nero) é um garoto paulistano de 17 anos com os hormônios a flor da pele, ao ponto de dividir relações sexuais entre garotos e garotas, e escondido da mãe Arcay (Dani Nefussi) vestir lingeries por baixo de suas calças jeans surradas e camisas de bandas de rock. Mas, a dualidade não está presente só em um personagem, mas sim em toda a estrutura do filme.
Suas duas mães, Arcay e Glória são interpretadas pela mesma atriz, Dani Nefussi, que mostra um sutil controle de cena e postura entre a dona de casa de classe média e a trabalhadora subempregada e estressada. Sua irmã de adoção é uma menina, enquanto seu irmão biológico é um garoto marrento típico, o que reforça as perguntas levantadas pelo roteiro do filme.

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Essencialmente o ser humano se define através do outro, ou seja, pelos laços que estabelece, o que faz com que a construção de identidade, mesmo em uma situação de crime, tome por si, uma ética própria. Assim como a identidade sexual, a afetiva fica em estado de indefinição e conflito pelas circunstâncias da descoberta de seu passado, mas é a partir da primeira, que Pierre, na verdade Felipe, seu nome verdadeiro, usa para se impor perante sua família biológica.

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O traço que mais escondeu de sua mãe, torna-se a arma para lembrar de sua verdadeira identidade. Mas, essencialmente o melhor trunfo de Muylaert como sempre é sua excepcional direção de atores. Entre um simples café da manhã, ou uma conversa numa loja, existe uma complexa rede de conflitos interiorizados que a câmera valoriza ao se aproximar dos rostos dos personagens, ou ao se afastar e revelar o plano geral.

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Talvez não faça o barulho de sua produção anterior, por ser mais intimista e menos sociológico na temática, mas é filosoficamente mais interessante. Outro ponto, que não deve ser esquecido, são a construção e escolha das locações, assim como o cuidado com os sotaques e costumes paulistanos, que foi sempre o calcanhar de Aquiles no cinema nacional, o que prova que a criação da SPCine trouxe responsabilidade com a identidade de nosso próprio regionalismo. Ótimo!




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