A década de 60 foi especialmente marcante para o movimento de Direitos Civis nos Estados Unidos. Figuras como Martin Luther King Jr. já tiveram suas histórias e lutas retratadas na TV e no cinema diversas vezes, mas com Uma Noite em Miami nós temos uma narrativa sob outra perspectiva: agora não somos levados para linha de frente e sim para trás dela.

Quatro personalidades negras e de extrema relevância nos campos que ocupam se encontram numa noite de comemoração na cidade de Miami e discutem sobre o papel do homem negro influente diante da luta por igualdade. Essa é a premissa de Uma Noite em Miami e se parece simples, é porque realmente é, mas é a qualidade e riqueza dos diálogos, além das interpretações, que tornam esse filme tão grandioso. Marcando a estreia na direção de Regina King, o filme que está disponível na Amazon Prime Video, é um encontro fictício, mas baseado em eventos reais que levaram à uma peça de teatro de mesmo nome, e já garantiu indicações na categoria de melhor filme e melhor direção no Critics Choice Awards e melhor direção no Globo de Ouro, tendo grandes chances de competir pelo Oscar e nada disso é à toa.

Cassius Clay (Eli Goree), Malcom X (Kingsley Ben-Adir), Jim Brown (Aldis Hodge) e Sam Cooke (Leslie Odom Jr.) se reúnem numa suíte de hotel, numa época em que a segregação ainda se fazia presente, para comemorar a vitória mundial de Cassius Clay, às vésperas de se tornar Muhammad Ali, e instigados por Malcom X embarcam numa conversa que gera conflitos, reflexões e autoconhecimento. Grande parte do filme acontece dentro do quarto do hotel, mas também temos oportunidades de vê-los interagindo com outras pessoas em cenas que mostram de forma sutil e inteligente como o racismo e a intolerância tiveram influência direta na vida de todos eles.

Malcom X, defensor do Nacionalismo Negro e visto por muitos como um “líder extremista”, já aparece em sua fase mais religiosa, como membro da Nação do Islã e uma espécie de mentor para Cassius Clay, podemos ver um lado mais humano do ativista, mas que já demonstra sua devoção às causas sociais e sua ideia de que seu objetivo para os negros só seria alcançado se todos usassem as armas que possuíssem.

Jim Brown, considerado um dos melhores jogadores de futebol americano de todos os tempos (e que depois acabou se tornando ator de Hollywood), participa de uma das cenas mais fortes do filme, em que vemos uma situação de racismo “velado” que pode ser facilmente relacionada à situações corriqueiras dos nossos dias de hoje.

Cassius Clay se torna um campeão mundial pela primeira vez no começo do filme. Ainda um jovem de 22 anos, começa a se aproximar da religião islâmica por conta de Malcom X e passa a entender a posição que ele viria a ocupar como um homem negro no boxe e a importância de sua religiosidade.

Dos quatro personagens principais, o destaque vai para Sam Cooke, que foi interpretado com maestria por Leslie Odom Jr. Sam Cooke é, na época, o mais bem sucedido financeiramente entre os quatro e é quem mais flerta com os “costumes brancos” e, como consequência, é quem antagoniza os ideais de Malcom X, que o vê como alienado por não usar de sua música para reforçar a causa.  

Toda a discussão presente na trama que se passa nos anos 60 é, até hoje, muito atual e necessária e nos faz pensar no longo caminho que temos que percorrer na esperança de alcançar aqueles objetivos idealizados há mais de 60 anos. Além dos diálogos bem construídos, a direção de Regina King também contribui tremendamente para o clima do filme que te coloca dentro do mesmo cômodo e como parte da conversa do quarteto de ícones que fez história e mudou a narrativa, quebrando estereótipos e servindo como modelo para as gerações futuras.

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